Este espaço destina-se à divulgação de Noticias, Ideias e Pensamentos e ao debate de temas relacionados com o Mar, a Politica, a Cidadania, o Turismo, a Sociedade e a Cultura em geral. FOI ADICIONADO UM CONTADOR A PARTIR DE NOVEMBRO DE 2010
Terça-feira, 6 de Novembro de 2018
Que Futuro: um progresso sob a forma de retrocesso?

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SOS SADO·DOMINGO, 4 DE NOVEMBRO DE 2018

O MUNDO ANDA PARA A FRENTE E SETÚBAL VOLTA AOS ANOS 70? 

 

Anda a sociedade civil e os media num corrupio total em volta do tema das dragagens no rio Sado, e o debate que se deve produzir, alto e bom som, parece estar a passar-nos constantemente  por entre os dedos.

Lamentavelmente, as redes sociais, esse imenso potencial de imersão e possibilidade de colaboração colectiva, ocupam muito mais o lugar de uma arena romana do que o de um espaço de diálogo, esclarecimento e edificação colectiva.

Não sendo isto uma novidade, é importante ter presente o papel da contra-informação e do ruído informativo em todo este processo como forma de afogamento da verdade.

Já lá vão os tempos em que a terapia de grupo se fazia à volta de um copo de vinho, a jogar chinquilho, a pescar ou à volta de uma mesa de bilhar. Entre um descargo de consciência, um desabafo e uma informação consistente, venha o diabo e escolha. Porque alguém teme pelo seu emprego na zona portuária, as dragagens passam a ter o valor de uma boia de salvação em alto mar. E não é assim. A queixa pode ser legitima, mas a solução não o é. Tudo se confunde e a solução aparece-nos mascarada de virtude como se nada mais houvesse a fazer. E não é assim que as coisas são, nem é assim que devem ser. Isto, se aquilo a que aspiramos tem por base comum o progresso da sociedade e a melhoria de vida para a generalidade dos cidadãos.

Qual é então a questão que nos escapa quase sempre à análise e que é colocada como objectivo central pelos defensores das dragagens? Observando toda a comunicação veiculada para os media, só há um objectivo claro: a necessidade imperiosa de criação de emprego com vista ao desenvolvimento e à melhoria das condições de vida da população. É esse o argumento central apresentado por todos os defensores das Mega-Dragagens: um mal necessário, assumido, mitigado pela oferta de emprego e pela promessa de desenvolvimento.

De facto, é este o grande argumento da opção política emanada do governo (via Ministério do Mar) secundada localmente com unhas e dentes pelos vereadores maioritários do PCP e do PS (CMS) assim como pela Administração do Porto de Setúbal SA.

Naturalmente, no abstracto, nenhum cidadão de bom senso se opõe a tal objectivo. Quem se opõe à melhoria das condições de vida das populações? É óbvio que todos desejam o desenvolvimento, sem excepção.

O problema que se coloca não é pois ao nível do objectivo, mas sim ao nível da metodologia escolhida para se atingir o objectivo. Na gíria é o “Como” que importa, algo que podemos identificar como a filosofia política da ideia das Mega-Dragagens.

É então neste ponto que as opções do governo, da CMS e da APSS SA se separam das opções de muitos cidadãos e organizações norteadas pelo bom senso e pelo reconhecimento dos valores do ambiente.

Listadas que estão as múltiplas vicissitudes e as  terríveis consequências desta filosofia em múltiplos artigos de imprensa e nas mais diversas posições das organizações ambientais (das mais formais às mais informais), será importante manter em perspectiva o objectivo central, e discutir de que outras formas ele pode ser atingido. Sendo consensual que todas as partes desejam atingir o desenvolvimento, então, com alguma agilidade política, este processo poderá muito simplesmente ser revertido. Bastará para isso alterar a filosofia (política) das decisões tomadas e encontrar novas formas de atingir o mesmo objectivo, lembrando que uma coisa são os objectivos e outra são os meios para os atingir. Vivendo em Setúbal, podemos todos ter o objectivo de ir a Lisboa ver um concerto de Benjamim Clementine, mas alguns preferirão ir de carro, outros de autocarro enquanto outros preferirão ir de comboio, conforme a condição pessoal de cada um. Ou seja, partilhamos um mesmo objectivo mas temos processos/formas diferentes de o poder atingir. O objectivo não é ir de carro a Lisboa, mas sim assistir a um concerto do Benjamim Clementine. Ir de carro é apenas uma forma de lá chegar, tal como as Mega-Dragagens são apontadas como uma forma de atingir desenvolvimento e ganhar postos de trabalho.

Como muito bem se entende, a solução (forma/processo) defendida pela APSS SA (seguir link sobre volume das dragagens, aqui), secundada em toda a sua latitude pela vereação e presidência CMS, subsidiárias das politicas do Ministério do Mar, aponta para uma transformação massiva da baía de Setúbal num gigantesco parque de estacionamento de navios de grande porte, capazes de transportar 6.000 contentores de uma só vez! E, na ambição dos promotores, com possibilidade de dois desses gigantes se poderem cruzar à entrada do rio. Para quem está um pouco alheado destas dimensões será importante lembrar que estamos a falar de barcos com um comprimento equivalente a 3 ou 4 campos de futebol (300/400 metros, ver exemplos aqui, aqui). Veja-se o gigantismo da coisa. Os simples buracos de rua demoram em Setúbal semanas ou meses a serem reparados, mas de repente já nos achamos capazes de lidar com barcos de 6.000 TEU’s e as respectivas 81 viagens/dia de camiões de grande porte, só para o aterro na zona nascente do Terminal Ro- Ro (nota explicativa, aqui).

De onde virá então tamanha inspiração?

É preciso lembrar que tais camiões e barcos são altamente poluidores da atmosfera e do mar com fortes implicações na saúde humana (notas explicativas aqui, aqui, aqui), constituem um perigo constante para a navegação do rio escravizando a circulação do estuário às suas gigantescas manobras (exemplos de acidentes com sérias implicações aqui, aqui, aqui, aqui)  e que, são perigosas incubadoras de seres estranhos ao nosso habitat de entre os quais se destacam insectos portadores de doenças mortais. Finalmente, mas não menos importante, o perigo constante que os seus lastros representam para o ecossistema do rio. É sabido entre os pescadores que neste momento estão já identificadas cerca de 4 espécies invasoras no rio Sado.

Interessa-nos pois, nesta fase critica do processo, saber o que nos promete a parceria CMS/APSS SA. Assim, analisando o Parecer da Comissão de Avaliação (link, aqui), na página 22 podemos constatar que, em fase de construção, num período estimado entre 3 a 4 anos, a criação de emprego corresponde a “60 empregos diretos e 180 empregos indiretos”. Isto sem que se saiba durante quanto tempo são esses empregos garantidos. Seguindo uma leitura linear, estes empregos extinguem-se após o término das obras uma vez que são empregos de obras, óbvio. Ainda a propósito da criação de emprego, na página 23 do mesmo documento, há um subcapítulo que merece ser transcrito na integra. Diz o seguinte:

Tráfego de Contentores

O acréscimo de tráfego de contentores gerado com a realização do projeto de melhoria dos acessos marítimos será de 86 000 TEU em 2020, aumentando progressivamente para 129 000 TEU em 2030 e até 185 000 TEU em 2040. Originará uma média de criação de emprego de 143 empregos diretos ao ano:

  • Em 2020, 2 anos após a execução das dragagens: 95 novos empregos diretos.
  • Em 2030: 141 novos postos de trabalho.
  • Em 2040: 200 novos postos de trabalho.

Como facilmente se depreende da leitura, a interpretação é ambígua e contraditória, sendo que não há absolutamente nenhuma justificação nem fundamentação de que empregos se fala, da sua natureza contratual ou da sua localização geográfica. Potencialmente poderemos estar a empregar programadores informáticos na Índia cuja tarefa se concentra em explorar algoritmos para margens de erro nos movimentos robóticos das gruas. Na prática é isto que pode acontecer.

Sendo este um parecer que está na origem de uma tomada de posição vital para a região, sendo a região a grande beneficiada por esta acção, seria de esperar dos seus responsáveis um mínimo de rigor e de lógica na fundamentação e exposição de argumentos. Na realidade, o que temos ali é um exercício de falibilidade mais próprio de uma actividade artística do que de uma actividade técnico-científica.

Em consequência, e como resposta a este devaneio vertido num documento sem alusão a  autores ou autor academicamente verificável, apresentam-se a seguir, uma série de alternativas passíveis de criação de emprego mais qualificado, em número muito superior ao proposto, com metas temporais mais curtas,  e sem qualquer impacto negativo para o meio ambiente.

 

OUTROS CAMINHOS, OUTRA VISÃO

Nas propostas que se seguem, e que constituem a ideia fundamental deste texto, valorizam-se as vantagens científicas, culturais e artísticas para a cidade e para o país. Apresentadas de forma sucinta,  as ideias constituem acima de tudo uma outra filosofia política e uma outra visão de futuro. Uma visão mais virada para o pilar da sustentabilidade ambiental em estreita ligação com o desenvolvimento científico, cultural e artística da cidade, da região, do país e do planeta.

É tempo de pararmos de pensar no ferro e seus derivados industriais, e de começarmos a pensar que essa época já passou há algumas dezenas de anos. O momento actual corresponde à época de informação, conhecimento e criatividade. Tal como precisamos de exorcizar as touradas em que se mata com o ferro, também precisamos de exorcizar a criação de empregos baseada na indústria do ferro e do metal. O mundo evoluiu desde então para cá, e as Indústrias Culturais são já uma área de investimento consolidado em todos os países desenvolvidos.

Veja-se o caso de Bilbao, em Espanha, uma cidade marcadamente industrial até aos anos oitenta e encurralada entre um passado de indústrias pesadas e um futuro incerto.

 

 

zona portuária de Bilbao, antes da implantação do Museu Guggenheim

Tendo entrado em franco declínio, com elevadas taxas de desemprego fruto da decadência da industria metalúrgica e da industria naval, consciente da crise que atravessava, Bilbao resolveu revitalizar-se, e, num autêntico golpe de rins criou aquele que é hoje um dos grandes centros de referência artística na Europa: o Museu Guggenheim. Desenhado pelo arquitecto Frank Gehry e inaugurado em 1997, o museu, para além de constituir uma das maiores referências mundiais da arquitectura, alberga constantemente exposições de artistas contemporâneos do mais alto nível, tendo-se tornado uma das mais fortes atracções turísticas de Espanha e da Europa. Três anos depois da sua inauguração, já contava com 4 milhões de visitantes geradores de 500 milhões de euros em actividades económicas.  Segundo números das autoridades locais,  foi estimado que o dinheiro gasto pelos visitantes em hotéis, restaurantes, lojas e transportes correspondeu à cobrança de cerca de 100 milhões de euros em impostos, e só no ano de 2016 o número de visitantes ascendeu a cerca de 1 milhão, algo inimaginável de acontecer 20 anos atrás (um pouco do seu historial, aqui). A média de visitas mensais anda na ordem dos 100.000 visitantes, pouco menos do que a população de Setúbal.

Ainda assim, pese embora o sucesso que viria a ter, a decisão de construir o museu pareceu demasiado ambiciosa para a altura e como sempre acontece não faltaram críticas dos mais diversos horizontes. No entanto, o caso da revitalização de Bilbao é de tal forma reconhecido e consolidado que já deu origem a um novo termo nas áreas de investimento cultural, arquitectura e planeamento urbanístico: “Bilbao Effect” (mais info aqui, aqui, aqui) . O projecto parecia demasiado arriscado para uma cidade tão empobrecida pelo desemprego e caracterizada na sua essência por uma grande ausência de sensibilidade artística e cultural.  Mas tal como se verifica em Bilbao e num sem número de cidades, a valorização artística tem desempenhado um papel vital no desenvolvimento das cidades desde os primórdios da humanidade. Fazer de conta que essa realidade não existe é ignorar uma dimensão fundamental no desenvolvimento humano, e em última análise, é mesmo uma recusa evolutiva.

Escolher hoje aqueles que eram os caminhos dos anos 70, não é evoluir, é regredir, é virar as costas ao futuro. Evoluir é muito mais do que andar a apanhar bonés e cair no engodo do negócio fácil. Evoluir é olhar para a frente e aprender com os erros do passado, tal como qualquer pai ensina aos seus filhos. Temos de mudar o paradigma antes que seja tarde demais para nós, e para a natureza que nos rodeia.

Ao longo da minha experiência de vida, tendo visitado várias dezenas de cidades um pouco por todo o mundo, de Rabat a Hong Kong, passando por Paris, Berlim, Kiev ou pelo Dubai, houve uma aprendizagem que me ficou gravada na memória como corolário de todas estas viagens: as duas grandes razões que levam as pessoas a viajar pelo mundo parecem ser (1) o turismo cultural, essencialmente orientado para a fruição da arte, e (2) o turismo geográfico, orientado para a beleza natural dos locais, em que se incluem naturalmente as suas variantes lúdicas (artesanato, cozinha local, etc.). Poderemos encontrar imensas micro variações dentro de cada género, mas invariavelmente acabarão todas por se integrar nestas duas grandes categorizações, sendo o turismo religioso o único que talvez fique a meio termo entre as duas categorias.

Pensando na cidade de Setúbal, talvez seja consensual admitir que a sua paisagem circundante e os seus parques naturais a fazem cair invariavelmente na segunda possibilidade, sendo que, relativamente à primeira categoria, a da arte, tudo está por fazer em Setúbal.

Partindo deste potencial existente, a grande pergunta que se coloca é: porquê colocar em causa o único património que temos como certo e válido para a região e para o país, havendo um porto de águas profundas em Sines, a algumas dezenas de quilómetros, em que se gastaram muito recentemente cerca de 700 milhões de euros?

Porquê fazer de conta que não se está a colocar em causa a integridade de um património natural único na Europa, literalmente entalado entre reservas naturais classificadas e aclamadas internacionalmente? Isto sem esquecer que a baía de Setúbal está classificada entre as dez baías mais belas do mundo.

Que sentido faz então toda esta atrocidade industrial e em nome de que racionalidade?

 

OUTRAS POSSIBILIDADES DE FUTURO, UM OUTRO IDEAL

1 - CRIAÇÃO DE UM PÓLO UNIVERSITÁRIO E CENTRO DE INVESTIGAÇÃO ORIENTADO PARA A NATUREZA

(ciência e investigação em vez de indústria pesada)

Há uma quantidade considerável de universidades espalhadas por esse Portugal fora. Porque não a criação de uma universidade em Setúbal? O potencial geográfico (rio, mar, serra, península) permitiria criar facilmente vários cursos de proximidade à natureza potenciados por um espaço laboratorial privilegiado, e de certa forma único em Portugal, capaz de atrair estudantes internacionais tendo em conta a tradição e vocação marítima do país. Possíveis áreas poderiam ser biologia marinha, estudos ambientais, biodiversidade, etc. Uma área possível de desenvolvimento  poderia ser também a biotecnologia, um campo de investigação em franca expansão em todo o mundo e que pode movimentar cerca de 5/6 milhões de euros/ano. Imagine-se os postos de trabalho e a massa critica que um tal espaço poderia injectar numa cidade como Setúbal. Numa dimensão mais modesta é muito frequente um centro de investigação poder movimentar valores na ordem de 300.000 €/ano e não é raro que um único investigador, ou um pequeno grupo consiga captar prémios de investigação na ordem de 1 ou 2 milhão de euros (exemplos aqui, aqui. aqui, aqui).

Logo à partida, um investimento desta natureza criaria muito mais emprego em fase de construção do que as dragagens em 10 anos, e a médio/longo prazo produziria a massa critica fundamental ao florescimento da cidade. Estudantes trazem vida e alegria ao espaço urbano, e aumentam bastante o comércio local de bens de consumo regular.  Acresce a ausência total de poluição.

A ideia tem tudo à partida para ser uma aposta ganha. Mais empregos, empregos mais qualificados e duradouros, mais massa critica, menos poluição e valorização exponencial do ambiente e dos valores da dignidade universal.

 

2 - CRIAÇÃO DE UM PROJECTO ARTÍSTICO DE GRANDE ESCALA PARA A CIDADE

(cultura em vez de indústria pesada)

A implementação desta ideia poderia ser conduzida, por exemplo,  segundo dois grandes vectores de orientação. Um deles direcionado fundamentalmente para a criação de um pólo universitário onde se produzisse reflexão que tivesse como eixo central as grandes preocupações artísticas do século XXI.

E um outro vector que apontaria para o reforço e consolidação de estruturas e actividades existentes, conferindo-lhes maior e melhor dignidade profissional. Neste caso, serão dados alguns exemplos, de entre os muitos possíveis.

Vector Século XXI: Criação de uma Universidade vocacionada para o ensino artístico  Num momento histórico claramente identificado como de importância vital para o desenvolvimento da criatividade, é fundamental dotar a cidade de um local de concentração e investimento no ensino artístico. Como se sabe pelos inumeráveis exemplos, sempre que uma cidade investe em cultura o seu crescimento faz-se exponencialmente. Dessa forma, considerando a proximidade à natureza, a implantação de um tal espaço poderia criar sinergias muito interessantes no domínio da investigação, podendo-se desenvolver projectos de acolhimento a artistas e investigadores que encontrariam na região o que de melhor se deseja: bom acolhimento, boa cozinha e um espaço laboratorial de excelência para estudar e trabalhar. As possibilidades de interacção com a natureza, como se sabe, constituem um aspecto crucial na vida das pessoas, e por essa ordem de ideias, representam um aspecto de enriquecimento para qualquer  estudante. Nesta vertente, a proximidade às actividades náuticas proporcionadas pela cidade poderia ser um importante factor de atracção para potenciais estudantes nacionais e estrangeiros. Por outro lado, considerando a proximidade a Lisboa, uma escassa meia hora de viagem via autoestrada, seria também relativamente fácil atrair e integrar professores residentes na capital, conseguindo-se assim um corpo docente relativamente sólido e experiente. Não menos importante, a proximidade do aeroporto para possível captação de professores visitantes estrangeiros desempenharia um papel igualmente vital na facilitação desse investimento.

Se considerarmos a possibilidade simultânea de existirem ambas as universidades (ponto anterior), poder-se-ia pensar numa parceria entre centros de investigação que visasse a investigação entre arte e natureza à semelhança de outros programas europeus de desenvolvimento científico.

A título de exemplo, posso citar o caso de Virus-Antivirus um projecto implementado em 2007 na MC2 (Maison de la Culture) em Grenoble, França, ao abrigo do programa l’Atelier Arts-Sciences e em que estive envolvido como artista-compositor. A essência do projecto consistia em explorar artisticamente um conjunto de desenvolvimentos tecnológicos (StarWatch) produzidos pelo Centro de Energia Atómica (CEA/ LETI/DCIS) por forma a levar esses mesmos desenvolvimentos ao extremo da sua utilização. Neste caso, o extremo da utilização tinha a forma de uma coreografia em que a própria coreografa/bailarina (Annabelle Bonnéry) controlava o desenvolvimento da composição de acordo com os seus movimentos. No processo de criação, em que estivemos sempre acompanhados por uma equipa de nanotecnologia do CEN chefiada pelo cientista Dominique David, foram testados vários protótipos que deram origem a novos modelos, mais resistentes, mais eficientes energeticamente e mais responsivos ao movimento.

No final do processo, o resultado da parceria teve dois outputs: um artístico (a coreografia e composição musical) e outro medico-científico (aparelhos de acompanhamento permanente ao movimento a doentes muito debilitados e terminais). O projecto percorreu imensos palcos e passou a constituir um case study na produção “arte-ciência” em França (mais informação, aqui).

Não poderia ser também uma ambição de Setúbal?

Vector Reforço e Consolidação: Criação de um Centro Cultural

Olhando para o panorama nacional é confrangedor observar que Setúbal não tem um Centro Cultural capaz de acolher espectáculos de média e larga dimensão à semelhança de tantas outras cidades nacionais. Os actuais espaços, embora dignos, não são dotados de equipamentos à altura das exigências actuais, nem estão dimensionados para as reais necessidades das actividades artísticas que seguem os standards técnicos habituais. Falta-nos por exemplo um auditório de média dimensão capaz de receber 180/250 expectadores (um formato convencional) e em que seja possível criar o modelo de black-box crucial à maioria dos espectáculos. O mesmo se pode dizer em relação a uma sala com escala de grande dimensão na ordem das largas centenas de espectadores (exemplos: Theatro Circo em Braga, ou o Centro Cultural Vila Flor em Guimarães).

Não menos importante seria criar uma equipa de programação igualmente capaz de responder aos anseios da população através de uma programação cuidada, actual e exigente. Mais uma vez, os dois casos de salas acima mencionados podem servir de referência. Só a título de exemplo, considerando o momento em que se escrevem estas palavras, dentro de 12 dias actuará no Theatro Circo o artista nórdico Nils Frahm, e há 5 dias atrás actuaram os Kronos Quartet. Seis dias antes actuou Damien Jurado. Ou seja, num espaço de 20 dias actuam em Braga, no Theatro Circo, 3 artistas de um nível e de uma contemporaneidade que Setúbal nunca foi capaz de programar e acolher.

Já é altura de se inverter esta triste política de isolamento e fechamento à realidade da criação contemporânea.

Com esta proposta, poderiam ser criados cerca de 20 postos directos e abriam-se as portas a muitas dezenas de postos indirectos. Ganhava Setúbal, ganhava a cultura e ganhavam os setubalenses que passam a vida a ir a Lisboa ver espectáculos que nunca circulam pela sua cidade natal. E com isso era menos dinheiro que os cidadãos de Setúbal gastavam em Lisboa e mais dinheiro que alimentava a economia local.

 

 

Festival Semibreve (Theatro Circo, Braga). Imagem: Adriano Ferreira Borges

Vector Reforço e Consolidação: Criação de um Festival de Artes Digitais

Se há coisas que nos nossos dias se tornam por demais evidentes, uma delas é certamente o peso que a ciência e a tecnologia digital imprimem no nosso quotidiano. Um pouco por todo o lado florescem festivais e encontros em que se comemora esta dimensão das nossas vidas. Sendo as artes digitais uma actividade em franca expansão por todo o mundo, seria de todo o interesse para os nossos jovens poderem ser confrontados com o que de mais interessante se faz na produção e criação digital. Um festival desta dimensão tem um potencial turístico gigantesco, podendo gerar receitas muito consideráveis num breve período de tempo. Lembre-mo-nos que só o festival Sónar em Barcelona é suficiente para alterar a balança de pagamentos da Catalunha. Em pouco mais do que vinte anos, o festival ganhou uma dimensão mítica e a sua organização tem já uma dimensão industrial, sendo um case study habitual no mundo das industrias criativas.

Em Portugal, o festival Semibreve, nascido em 2011, em Braga, é já tido como um dos grandes festivais europeus de novas musicas atraindo à cidade espectadores e imprensa especializada de todo o mundo (exemplo, aqui). Segundo estudos de 2017, o Impacto calculado com base na determinação do valor monetário das notícias (AVE –Advertising Value Equivalence) ascende a cerca de 660.000 euros, sendo 27% desse valor de origem internacional.

Paralelamente, a área das Indústrias Criativas está neste momento a movimentar alguns milhões de euros no Norte de Portugal através de um programa de continuidade de investimento que se estende ao longo dos próximos anos. Mais uma vez, opções que não poluem, que não destroem o ambiente e que só aumentam o nível de literacia nos cidadãos.

Os postos directos de trabalho num evento desta natureza ascenderiam a uma escassa dezena, se tanto, mas num curto espaço de tempo movimentariam muitas dezenas de milhares de euros em estadias, alimentação e serviços diversos relativos à permanência de turistas culturais na cidade. E, como se comprova em casos semelhantes, a tendência verificada é para esses mesmo visitantes trazerem novos visitantes num processo de realimentação positiva.

Vector Reforço e Consolidação: criação de uma Orquestra Filarmónica

Se se criasse uma orquestra - a Filarmónica de Setúbal - já se criavam 100 postos de trabalho. Mais postos directos do que os anunciados para 3/4 anos de obras de dragagens. Acresce que uma orquestra não destrói a natureza, antes pelo contrário, exalta-a, e em consequência há mais riqueza cultural e menos poluição. Com uma orquestra viriam os afinadores de instrumentos, os reparadores de instrumentos e mais estudantes de música, com o consequente emprego de professores de música, uma classe tão desesperadamente nos limites da sobrevivência. Sabemos o quão rico é o distrito de Setúbal em produção de músicos (Conservatório, Academia, Capricho, Caceteiros, Loureiros, etc.). Porque não empregá-los numa orquestra? Evitariam ter de sair da cidade e da região para trabalhar, tal como tem acontecido a tantos jovens e adultos. Em postos indirectos também superaríamos os mesmos 180 anunciados para 3 / 4 anos de obras. Com o desenvolvimento e consolidação da orquestra poderíamos ter uma maior projecção artística da cidade, algo que, lamentavelmente, não acontece de forma alguma.

Vector Reforço e Consolidação: criação de um Coro Profissional

Se se financiasse adequadamente um Coro de Setúbal em direcção à profissionalização dos seus membros, não seria necessário que os próprios cantores estivessem constantemente a contribuir financeiramente para as estruturas existentes. Seriam outros 30 ou 40 postos de trabalho. E com eles uma maior qualidade vocal e maior projecção artística da cidade. Mais uma vez: mais riqueza cultural, menos poluição e mais natureza.

Uma medida que faria todo o sentido na cidade que consagra o nome de uma cantora lírica à sua maior e mais icónica avenida: Luisa Todi. Essa sim, seria uma verdadeira homenagem à cantora que levou o nome de Setúbal a lugares até então “nunca antes navegados” por um setubalense.

CONCLUSÃO

O que nos impede então de fazer de Setúbal uma cidade melhor, senão a vontade de não avançar?

Como se sabe, as grandes cidades tornam a comunicação e a interacção social muito difícil. É demorado, dispendioso e bastante desmotivador passar diariamente muito tempo em deslocações de um lado para o outro, algo que começa a acontecer quando as cidades atingem os 500/600.000 habitantes. Como é sabido, Setúbal tem uma população que coincide com o número considerado ideal para se viver equilibradamente num centro urbano.

Este é, pois, o momento certo para se dizer não a algumas coisas e sim a outras. Como nos disse vezes sem conta Jean Paul Sarte, esse grande pensador da humanidade: estamos condenados a ter de escolher. É essa a nossa grande responsabilidade em vida, escolher, fazer opções. Está nas mãos de cada um, escolher o que julga ser melhor observando os exemplos que nos rodeiam.

Sem grandes pretensões, foi esse o retrato que vos quis fazer, o de uma possibilidade de escolha entre muitas outras.

E se alguém acha que pode negar e contrapor esta possibilidade de futuro com um outro em que grandes embarcações de contentores dominam a paisagem do estuário do Sado, então que nos apresente essa sua visão e que o faça com argumentos plausíveis. O que nos é proposto com estas Mega-Dragagens, não perspectiva qualquer possibilidade de desenvolvimento social para a cidade nem para os seus moradores.

Nesta encruzilhada que se nos oferece, para já, o que temos é um executivo camarário com maioria absoluta PCP e PS que prefere que se despejem contentores numa das dez baías mais belas do mundo, e que na primeira Sessão Pública de Câmara do mês de Outubro de 2018, chamou a essa opção desenvolvimento e progresso.

Fica-me a ideia de que estes senhores e senhoras vêm o mundo a andar para a frente, mas querem Setúbal de volta aos anos 70.

E nós, o que fazemos?

Vitor Joaquim, 4/11/2018

https://www.facebook.com/notes/sos-sado/que-futuro-um-progresso-sob-a-forma-de-retrocesso/1933482273426163/

Publicado no Mar Revolto por: Antonio de Lemos

Imagem: Museu Guggenheim Bilbao https://www.guggenheim-bilbao.eus/pt-pt/informacao-util/horarios-e-tarifas/

 

 



publicado por António Lemos às 11:52
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