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Uma escavação arqueológica em meio húmido implica sempre a exposição dos artefactos recuperados a um ambiente para o qual já não estão preparados. Este material terá, após algumas centenas de anos imerso, atingido uma situação de estabilidade no seu meio ambiente o que leva a que, num espaço de tempo relativamente curto, esta estabilidade seja alterada, iniciando-se um novo ciclo de deterioração. Assim sendo, quando o objecto for recuperado, este deverá ser fotografado e medido imediatamente para que se não percam informações vitais durante os processos de conservação e restauro.
A maior parte dos objectos recuperados está encerrada numa película mineral dura de concreção que, apesar de deformar o objecto e de esconder o que verdadeiramente se encerra no seu interior, produz um ambiente estável e impede a continuação do processo de corrosão iniciado pela acção do oxigénio dissolvido na água. Geralmente, as concreções provenientes de naufrágios são uma mistura de fragmentos de madeira, de materiais metálicos, de vidro, cerâmica e outros materiais, tudo embebido numa matriz de produtos de corrosão, sedimentos e alguns seres vivos marinhos. Estas concreções podem formar-se por processos físicos - através do crescimento de organismos na superfície do objecto; físico-químicos - pela dissolução e re-precipitação de carbonatos; bioquímicos - através da baixa de acidez devido a variadas acções microbiológicas; ou electroquímicos - em que a interacção de metais de natureza diferente leva à corrosão acelerada do metal mais dúctil. Todas as concreções deverão ser radiografadas de modo a que se possam identificar quer a natureza dos objectos nelas encerrados quer o seu grau de conservação, de maneira a que se possam adoptar medidas de conservação ainda antes da abertura da superfície concrecionada.
A dessalinização. A remoção dos sais minerais provenientes da água salgada é uma das partes mais importantes no processo de conservação dos objectos retirados do mar, especialmente quando o seu material constituinte for o vidro, a cerâmica ou a pedra. O método mais utilizado consiste na imersão destes objectos em água salgada, água esta que, progressivamente, vai sendo cada vez mais diluída com água destilada até que o nível de cloretos em meio aquoso seja considerado desprezável. Este tratamento pode ter uma duração superior a um ano, mas é fundamental que se realize para que o objecto a conservar perca todos os sais capazes de acelerar o seu processo de corrosão. A identificação da natureza dos objectos recuperados é o próximo passo. Entre os materiais passíveis de serem encontrados num naufrágio, encontram-se os materiais de origem orgânica - madeira, couros, marfim, osso, etc. - e os materiais de origem não orgânica - metais, cerâmica, vidro, etc.
Metais. O ferro fundido é o material constituinte da maior parte dos canhões e âncoras retirados do fundo do mar.
Após a sua retirada do ambiente marinho, estas peças desintegrar-se-ão rapidamente se não forem imediatamente conservadas em água, pelo facto do seu processo típico de deterioração formar um núcleo metálico fragilizado, cuja coesão é apenas assegurada por uma frágil cobertura de produtos de corrosão grafitizados. A exposição ao ar vai acelerar brutalmente o processo corrosivo na zona de contacto entre a camada grafitizada e o núcleo metálico, o que conduz a um processo exotérmico de libertação de energia que, por vezes, faz com que as peças venham a desintegrar-se violentamente.
Por outro lado, o ferro forjado tem um teor de carbono muito mais baixo do que o apresentado pelo ferro fundido o que leva a que a característica malha de grafite, típica dos objectos de ferro fundido, não se forme. Se a peça não for dessalinizada, o processo corrosivo continua à superfície e o núcleo metálico acabará por desaparecer no interior de uma camada rígida de concreção o que leva a que não se retenham as formas ou as inscrições originais da peça. Tanto para o ferro forjado como para o ferro fundido, a presença de cloretos acelera o processo de corrosão o que obriga a que, para a sua remoção, as peças devam ser imersas numa solução de água doce a 2% de soda cáustica. Após a remoção total dos cloretos, a peça é tratada electrolíticamente.
As ligas de cobre - tais como o bronze e o latão - são menos afectadas pela acção nefasta dos seres marinhos visto que o cobre é tóxico para a maioria dos seres vivos o que leva a que os objectos feitos à base deste metal estejam menos concrecionados do que os seus congéneres de ferro. O processo corrosivo destes metais leva a que se dê uma mineralização da liga metálica o que origina camadas frágeis de produtos de corrosão. Se a peça for retirada sem a conveniente dessalinização, os cloretos presentes na trama metálica ocasionam a destruição do metal, num processo conhecido pelo nome de doença do bronze. Para que tal não aconteça, o objecto deverá ser imerso numa solução de benzotriazol a 1%. O chumbo e o estanho não necessitam de tantos cuidados na conservação visto que a mera imersão em água doce da peça é o suficiente para que o objecto se mantenha estável. O ouro e a prata são os metais menos passíveis de sofrerem corrosão marinha, embora a prata, quando impura, possa vir a ocasionar ligeiras concreções superficiais.
Cerâmica, vidro e pedra entende-se como cerâmica o material que foi feito à base de barro e cozido a altas temperaturas. Um dos problemas de conservação deste tipo de material é a profusão de organismos vivos que cresce geralmente na sua superfície. O outro problema são os cristais de sais minerais que, ao se desenvolver por debaixo da camada exterior da peça, levam a que a cobertura se rompa e se destaque da mesma.
Como conclusão, não se deve permitir que as peças sequem de uma forma descontrolada. Estas breves considerações permitiram-nos ver que os processos de corrosão que se originam em situações de naufrágio são ainda mal compreendidos pela ciência o que leva a que o número de especialistas nesta área seja ainda muito reduzido.
Texto retirado do Site Mar-alto